01 de Junho de 2011

 

Se houve momentos marcantes nas actividades promovidas pela nossa Biblioteca Escolar, durante este ano lectivo, a acção de sensibilização para a poesia, subordinada ao tema “Ah! Isto é que é poesia?”, dinamizada pelo formador Filipe Lopes do grupo “O Contador de Histórias, sediado em Tomar, merece, de facto, uma posição de destaque.

A capacidade de comunicação do orador aliada a uma selecção cuidada dos textos utilizados e à declamação magnífica que fez de cada poema, marcaram de uma forma extraordinária todos os que tiveram o privilégio de participar nesta actividade, que se repartiu por duas sessões, envolvendo turmas dos 10º, 11º e 12º Anos.

Filipe Lopes começou por tirar partido daquilo que os jovens mais gostam – a música, as canções e o amor – para despertar neles o prazer da leitura e, em especial,  o prazer da poesia. Depois de estimular a participação voluntária dos alunos levando-os a criar as suas própria definições para conceitos como Poesia, Poema e Poeta conseguiu que alguns deles fizessem leituras mais ou menos expressivas de alguns poemas, para todo o auditório.

Além disso, o orador procurou contrariar a ideia vulgar de que um poema é um texto difícil de ler e de entender e fê-lo de forma magnífica quando mostrou que um poema pode nascer de palavras e frases banais, bastando apenas que elas tenham a virtude de nos fazer sentir alguma coisa quando as lemos ou ouvimos. E para que esse despertar de sentimentos seja mais conseguido, realçou a importância do tom de voz, do ritmo e da entoação que damos à leitura de cada palavra de um poema e também às pausas ou momentos de silêncio.

Se a poesia serve para sentirmos alguma coisa, como defendeu Filipe  Lopes, o seu objectivo foi perfeitamente alcançado quando declamou vários poemas entre os  quais destacamos, pela expressividade  que lhe imprimiu , o poema de Eugénio de Andrade, Adeus:


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mão à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras

e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!

e eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

no tempo em que o teu corpo era um aquário,

no tempo em que os meus olhos

eram peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor...,

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Também a leitura  do poema de José Luís Peixoto tocou  profundamente  no coração de todos os que participaram nesta sessão:

 

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu. depois, a minha irmã mais velha

casou-se. depois, a minha irmã mais nova

casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu

pai, menos a minha mãe viúva, cada um

deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco.

 

Seguiram-se muitos outros  poemas, uns mais sérios, outros mais divertidos, não faltando a ironia e até mesmo o “nonsense” que causaram alguns bons momentos de riso entre os participantes. Poder conhecer e apreciar os textos de  muitos e variados autores entre eles: Baudelaire, Camões,  Florbela Espanca, Jorge de Sousa Braga, Natália Correia, Mário Henrique Leiria , Carlos Drummond de Andrade e António Lobo Antunes, foi uma oportunidade bastante enriquecedora e estimulante para todos.

 E porque esta actividade nos proporcionou muitos e bons momentos de poesia, felicitamos o dinamizador por todo o trabalho que desenvolveu. Mais do que um espectáculo, esta acção foi uma lição de vida que Filipe Lopes conseguiu transmitir. Citando Boudelaire,  levou os nossos jovens a reflectirem sobre o  valor que a poesia pode ter nas suas vidas  e quão importante é saber fazer boas opções, saber “embriagar-se” não com vinho ou outras dependências, mas com a poesia, “ com os livros e com virtude”.

Mais do que um “contador de histórias”, Filipe Lopes revelou-se um notável encantador de pessoas. PARABÉNS!

 

Para mais informações sobre este grupo visite:

http://www.ocontadordehistorias.com/

  

 Algumas fotos da actividade:

 

 

 O dinamizador - Filipe Lopes

 

 

 O dinamizador e alunos participantes

 

 

 O auditório atento e interessado

publicado por António Oliveira às 23:24

01 de Junho de 2009

Ensinaram-me a falar
aprendi a escrever.
Ensinaram-me a escrever
aprendi a falar.
Ensinaram-me a ler
aprendi a ver.
Ensinaram-me a ouvir
aprendi a calar.
Ensinaram-me a pedir
aprendi a dar.
Ensinaram-me a comprar
aprendi a ter.
Ensinaram-me a beber
aprendi a rir.
Ensinaram-me a fugir
aprendi a ficar.
Ensinaram-me a aprender
aprendi a ignorar.
Ensinaram-me a amar
aprendi a criar.
Ensinaram-me a viver
aprendi a morrer.
Ensinaram-me a estar só
aprendi a estar.
Ensinaram-me a ser livre
aprendi a ser.

 

Ana Hatherly, in Antologia da poesia portuguesa.
Org. M. Alberta Meneres, E. M. de Melo e Castro. Vol. 2: 1940-1977, Lisboa : Moraes, 1979.

 

publicado por António Oliveira às 17:21

24 de Março de 2009

 

 

 

 

publicado por António Oliveira às 22:38

20 de Março de 2009

FLORESTA

 
Quem planta uma floresta
Planta uma festa.
Planta a música e os ninhos,
Faz saltar os coelhinhos.
Planta o verde vertical,
Verte o verde,
Vário verde vegetal.
Planta o perfume
Das seivas e flores,
Solta borboletas de todas as cores.
Planta abelhas, planta pinhões
E os piqueniques das excursões.
Planta a cama mais a mesa.
Planta o calor da lareira acesa.
Planta a folha de papel,
A girafa do carrocel.
Planta barcos para navegar,
E a floresta flutua no mar.
Planta carroças para rodar,
Muito a floresta vai transportar.
Planta bancos de avenida,
Descansa a floresta de tanta corrida.
Planta um pião
Na mão de uma criança:
A floresta ri, rodopia e avança.
 
Luísa Ducla Soares
 
publicado por António Oliveira às 00:01

19 de Março de 2009

 

O POEMA

O poema me levará no tempo
Quando eu não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

 

 
 O POEMA – Sophia de Mello Breyner
 
 

 

publicado por António Oliveira às 00:01

18 de Março de 2009

LISBOA: AVENTURAS

 
tomei um expresso
                               cheguei de foguete
subi num bonde
                           desci de um eléctrico
pedi cafezinho
                         serviram-me uma bica
quis comprar meias
                                só vendiam peúgas
fui dar à descarga
                              disparei um autoclismo
gritei «ó cara!»
                          responderam-me «ó pá»
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá
 
José Paulo Paes, poeta brasileiro
 
publicado por António Oliveira às 00:01

17 de Março de 2009

 

 
JOGO
 
Abro a caixa do Inverno. Tiro os ventos,
as rajadas de chuva, os bancos de neve de onde
fugiram todos os pássaros. Desenrolo à minha
frente os pântanos do Inverno. Ando à volta
deles para desentorpecer as pernas; sacudo
o frio das mãos; limpo a chuva que se me colou
aos cabelos. Depois volto a lançar os dados
 – e avanço até à primavera.
 
Nuno Júdice, poeta português, (Século XX).
 
 
publicado por António Oliveira às 00:01

16 de Março de 2009

O Dia Mundial da Poesia celebra-se dia 21 de Março. No entanto, a nossa biblioteca vai, durante toda a semana, publicar vários poemas para assinalar esta data: cinco dias, cinco poemas.
Poderás encontrar, na biblioteca, alguns poemas que podes levar contigo. Nas salas de aula haverá poesia para todos. Também iremos colocar poemas nas árvores dos jardins da escola e da vila. Não esquecer que este dia coincide com o início da Primavera e com o Dia da Árvore.
“Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.” Federico García Lorca - Poeta e dramaturgo espanhol - 1898/ 1936

 

 

 

Poema I
 
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
 
 
Florbela Espanca - Ser poeta
 
publicado por António Oliveira às 00:01

28 de Novembro de 2008

Poema à Biblioteca

 
 
 
 A Biblioteca Mágica
 
 
 
 Biblioteca Encantada
 
 

 

O Livro

 
 
 

 

publicado por António Oliveira às 00:47

30 de Junho de 2007

DOWNLOAD VERSÃO PDF

publicado por António Oliveira às 22:15

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